"A busca é um meio e não um fim" - Expressividade Silenciosa

Entrevista com Alda Galsterer para a revista Attitude#83 Set. 2018

Alda Galsterer: Estudou Design e Cerâmica no IADE e Desenho no Ar.Co. Como foram estas experiências de ensino, e como é que cada uma delas marcou o seu trabalho como artista?

Beatriz Horta Correia: As experiências de ensino foram importantes no sentido em que são a base de uma aprendizagem, uma estruturação para o início de um percurso de trabalho. Nos primeiros anos a fase de descoberta e encontro com matérias, experiências, referências e ideologias é muito motivadora para começar a estruturar e crescer. Depois acho que senti que aquilo que era oferecido me sabia a pouco, então aí começou um percurso mais pessoal de ir à procura e de pesquisar onde podia aprender mais. O fazer e ver fazer são também uma grande escola…

AG: Desenho e cerâmica, são os seus media principais. O que associa com estas materialidades, tão diferentes uma da outra?

BHC: Para mim existe uma grande ligação entre estes dois media, ou melhor, no meu trabalho existe esta relação, apesar de um ser bidimensional e o outro tridimensional, a linguagem que utilizo é transversal a ambos. São muitas as relações, formal, cromática, de conteúdo e até na própria matéria. Em algumas peças que produzi, utilizei papel embedido em pasta líquida de porcelana para criar novas formas, e noutras, objectos de papel existentes como por exemplo na obra “Com que matéria se fazem poemas?”, que foi feita a partir de livros de poesia mergulhados em porcelana.

AG: Os seus desenhos remetem-nos muitas vezes para a ideia de paisagem, pela sua orientação horizontal, não obstante sempre mantendo um registo mais abstracto com um traço leve e em movimento. Quando vemos as suas obras em cerâmica, elas próprias nos parecem paisagens em miniatura; é essa a intenção?

BHC: A paisagem e a natureza são referências e pontos de partida em muitos trabalhos. Interesssa-me trabalhar modos de representação e percepção fundindo diferentes tipos de vocabulário. Muitas representações não pretendem ter uma relação directa com a realidade visual, mas sim com memórias ou um experienciar das mesmas. A dimensão na cerâmica tem um limite dado muitas vezes pelo próprio media, não considero que sejam miniaturas, o objectivo não é trabalhar a escala, considero sim que são objectos e esculturas construídos a partir de uma ideia de paisagem, que muitas vezes funcionam por conjuntos ou com uma dimensão adaptada a cada peça.

AG: A ideia da paisagem remete-nos sempre para uma ideia de narrativa, de eixo temporal que atravessa a vida, e por consequência também um ponto importante para a arte. Isto é de facto uma reflexão central para o seu projecto criativo?

BHC: Sim. A ideia de paisagem atravessa tudo. Aqui posso questionar vários conceitos como o efémero, o vazio, o silêncio ou a memória, e o tempo é uma premissa que se encontra em todas estas questões. As paisagens são construções, se nos afastarmos do real podemos encontrar imensas referências em objectos, formas e detalhes a que poderíamos muito bem chamar de paisagem. Há ainda a paisagem como cenário de acções, construções de espaço e narrativa… Muitas vezes no meu trabalho a narrativa é também reforçada com o recurso à utilização de texto ou palavras, ou a referência à ausência dos mesmos. 

AG: Em último, concorda, ou não, com a afirmação de Francisco Clode Sousa que diz que o seu trabalho reflete um “olhar de quem procura, de quem decidiu que a busca é um meio e não um fim”?

BHC: Concordo. A procura é para mim por si só um factor motivador de trabalho. É durante o processo de trabalho, tanto no desenho como na cerâmica, que vou percorrendo caminhos e encontrando soluções. Há um ponto de partida, uma ideia, mas a construção é sempre uma descoberta, uma revelação, um diálogo entre o que se constrói e a sua construção. Gosto também de desafiar a matéria e testar os seus limites, principalmente na cerâmica onde a interacção do barro com a água, o tempo e o fogo, torna todo o processo um constante diálogo entre o possível, o efémero e a permanência.

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