​Coisas de Criadores: Beatriz Horta Correia

Entrevista com Dora Santos Silva - “My Pillow Notes” #16 22-06-2020

Obter a memória de um livro através de porcelana absorvida pelo papel é, no mínimo, um desafio aos limites da matéria. Beatriz Horta Correia ultrapassa-os continuamente: há esculturas gigantes, mas leves, e poesia marcada pelo

peso do grês.

DSS: A sua atividade artística centra-se no desenho e na cerâmica. A primeira é bidimensional, a segunda tridimensional. Complementam-se?
BHC: Sim, o meu trabalho em cerâmica/escultura tem muito a ver com o trabalho em desenho, há uma linguagem comum e interessa-me conjugar ambos, criar diálogos e sinergias entre as várias obras. Para mim isso é natural, pois reflete como eu penso, sinto e me relaciono com o mundo. São muitas as relações, formal, cromática, de conteúdo e até na própria matéria, apesar de um ser bidimensional e a outra tridimensional.


DSS: Na instalação "Com que matéria se fazem poemas?" funde os livros em porcelana (ou ao contrário). Que mensagem quer passar com essa fusão?
BHC: Esse trabalho foi realizado com livros de poesia e barbotina de porcelana. A porcelana, ao ser absorvida pelo papel, adquire a forma do mesmo, e depois é trabalhada para lhe dar a forma que pretendo. Pela ação do fogo, durante a cozedura, o papel transforma-se em cinza ou pó e desaparece; a porcelana solidifica e mantém-se estável. Com este processo pretendo obter a memória daquele livro. Existe uma transformação da matéria, interessa-me explorar este aspeto, o lado efémero das coisas, da ausência e da permanência. Há todo um desafio ao testar e tentar controlar os limites da matéria, da sua fragilidade e resistência.

DSS: As suas obras são muito orgânicas, quase se fundem com a natureza. É esta a base do seu processo criativo?
BHC: Sim, em grande parte. A paisagem e a natureza são referências e pontos de partida em muitos trabalhos. De facto uma grande fonte de inspiração. Interessa-me trabalhar estas temáticas afastando-me de uma representação da realidade, trabalho muito mais com memórias ou a partir de percepções e sensações, ou ainda com referência a textos ou poesia, do que mimetizando o real, muitas vezes até caminhando para a abstracção.


DSS:A escultura de papel que fez na residência artística na Viarco em 2018 remete-nos para a "insustentável leveza" do ser, da arte ou do papel?
BHC: Foi de facto um privilégio ter feito esta residência na Viarco, tive a oportunidade de trabalhar num espaço único, explorando materiais excepcionais e com um acolhimento extraordinário. As esculturas que criei em papel vegetal são peças com alguma dimensão (cerca de 2,50 m de altura) mas extremamente leves. Foram instaladas na secção da mina da fábrica, um espaço escuro, onde tudo está envolvido em grafite ou em pó de grafite, um brilho metálico, com máquinas que são verdadeiras relíquias de arqueologia industrial... Estas esculturas são como que corpos vazios, leves, brancos, translúcidos, ausências, com formas pouco definidas, suspensos, aproveitando a luz e o vento. São desta forma um jogo de opostos - luz/escuridão, positivo/negativo, ser/não ser, peso/leveza.

DSS: Também desenvolve projetos de design principalmente na área da cultura.

É muito diferente fazer design de produto ou de marca para o mercado cultural?
BHC: Desenvolver um projecto de design envolve sempre um pensamento, um entendimento daquilo que se pretende criar. É pelo menos assim a maneira como eu trabalho, e deste modo, não é muito diferente a maneira de fazer, qualquer que seja o âmbito do produto a desenvolver. A diferença está, talvez, na afinidade e proximidade que se tem com esse mercado, que pode deste modo ajudar no desenvolvimento do processo de criação para encontrar as soluções adequadas.

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