Musas em Ação

Texto de Fátima Lambert

Cristina Ataíde, Beatriz Horta Correia, Graça Pereira Coutinho e Miguel Gaspar realizaram nos dias 12, 13 e 14 de julho de 2019 a residência artística de Monsaraz e margens do Guadiana, durante a qual conceberam e produziram trabalho artístico específico para o projeto de curadoria MUSAS EM AÇÃO – espessura da [in]visibilidade, título da programação ideada para Mulheres nas artes, ciências sociais e humanas, ciências e tecnologias - iniciativa da Universidade do Porto.

Na Galeria 2 do Edifício da Reitoria nos Leões mostram-se nesta exposição 3 instalações, distribuídas ao longo do espaço que foi organizado e dividido entre as 3 artistas e que integra a apresentação de dizei-me agora ó Musas, vídeo concebido especialmente por Miguel Gaspar.

Dizei-me agora, Musas que habitais as moradas do Olimpo (pois sois deusas, assistis aos acontecimentos, conhecei-los todos, e nós não ouvimos senão a sua fama, e nada sabemos), quais eram os guias e os chefes dos Dánaos. (Homero, Iliada)

As Musas Arcaicas, as Musas Modernas, As Musas Contemporâneas…sempre em ação ultrapassando o tempo, evocando Dionísio e Apolo conciliados pela força da intuição criadora e do pensamento atuante. As Musas, quando assim decidiam, plasmavam a verdade, delas emanando revelações que nem todos eram capazes de antecipar, quanto mais decifrar ou ponderar. As nove filhas de Mnemosine e de Zeus eram: Glória, Alegria, Festa, Dançarina, Alegra-coro, Amorosa, Hinária, Celeste e Belavoz. Conhecem-se por Calíope (poesia épica); Clio (história); Polímnia (retórica); Euterpe Terpsícore (dança); Érato (lírica coral); Melpômene (tragédia); Talia (comédia); Urânia (astronomia).

No período arcaico da Grécia, o Aedo era um protagonista privilegiado que incorporava os dons outorgados através das Musas, emocionando e perturbando os espetadores, propiciando uma experiência estética fundada em razões psicoafectivas, exploratórias de processos de introjeção-projeção. Eis uma das origens da consciência artística e estética subsumida no conceito de triunica choreia.

As Musas manifestavam-se pela Dança, Canto, Música, Voz, Poesia, História e Astronomia, alimentando-se e ofertando aos mais dignos, o que a Memória lhes infundia. Depois, as Musas apropriaram-se – em termos metafóricos - do Desenho, da Pintura, da Escultura, invadindo os campos poéticos e converteram o mundo em substâncias que, ad initio, dele nascem e à Ordem das coisas retornam. As Musas são bisnetas da Terra, onde tudo se

infunde e é absorvido. Pois as Musas me ensinaram a cantar um hino maravilhoso. (Hesíodo, Teogonia), os rituais ancestrais reativaram-se, proclamando a urgência humana em aplacar os 4 elementos, redimindo-se de seus devaneios inconsequente e ações gratuitos ao longo de séculos. A Arte é remissiva perante a convicção generosa da criação que artistas

cumprem em estado de utopia lúcida. Tudo se reduz à preciosidade do fio de feno, do vento que sopra a folha de papel e da mão que aflora a espessura ínfima. Tudo se grava nas paredes da memória singular viso-verbico-mental. Esquecer, paradoxalmente para lembrar, eis Mnémosine que contraria sua própria natureza (para a asseverar) ao propugnar o esquecimento de males e descanso de preocupações. (Hesíodo, Teogonia)

Na produção das artistas-mulheres reconhece-se a singularidade conceitual, as caraterísticas da conceção ideativa acionada; determinar, de acordo à intenção que autoridade pessoal lhe consigne, qual a sua especificidade na totalidade de suas possibilidades, relembrando Giorgio Agamben, A Comunidade que vem (1993).

As Artistas passam a ser as Musas e clamam por Ação. Possuem o conhecimento, sendo capazes de o iludir e transmutar em causas e pretextos alheios à verdade, sob auspícios da utopia ou da quimera. Usufruem do poder metamórfico que acionam nos demais, instigando-os à mudança e dinamismo que redimirá a comunidade nos seus valores primordiais.

Para que as Musas se convertessem definitivamente em Musas atuantes, em prol de uma auto-poiesis e gerarem elas as obras que induziam a outrem, a História reacendeu-se. Havia que perscrutar onde, nos confins do tempo, se identificavam referências às primeiras pintoras, desenhistas, ilustradoras, autoras: poetas, escritoras e demais intelectuais. Na 1.ª fase, retrocedeu-se à Antiguidade tardia e Idade Média. Deu-se continuidade até à listagem mais recente de artistas contemporâneas e atuais, articulando a constituição

de arquivos: um de imagens e outro de registo de pensamento crítico e teórico – privilegiando domínios da Estética [Filosofia], Poética e Teoria da Arte.

Identificam-se e mapeiam-se identidades na extensão e cruzamentos interculturais, dilatando a travessia da Europa e o vaivém no Atlântico – Portugal/Brasil.

As mulheres-artistas incorporaram perspetivas e expandiram, assuntos e temas até então esparsos ou dispersos, refletindo as convicções e firmando intencionalidades. Na atualidade, questiona-se a extrapolação estereotipada do termo “mulheres-artistas”, entendido por alguns como limitativo ou endereçando ao reconhecimento de uma obra, mais dirigido pelo reconhecimento “questão de género”, do que pela qualificação em si. Além da palavra artista ser feminino… Ditoso aquele a quem as Musas amam…

(Hesíodo, Teogonia)

 

*[O Projeto A [in]visibilidade da mulher na História da Arte – pensamento,

obras e ações [InED – Escola Superior de Educação, Politécnico do Porto],

surgiu da investigação pessoal iniciada em 2000 (FCT – Writing and Seeing].

A partir de 2006 traduziu-se nos seminários anuais A [in]visibilidade da mulher na História da Arte e do pensamento [até 2009 em parceria com Paulo Reis, no Instituto Cultural D. António Ferreira Gomes, Porto].

Maria de Fátima Lambert

Musas em ação.jpg

Exposição "Musas em Ação - Espessuras da [In] Visibilidade", 2019

Curadoria de Fátima Lambert,

Reitoria da Universidade do Porto, 2019