A poética da memória


Como bem notou Jonah Lehrer, antes mesmo de a neurociência ter descoberto que a memória era uma composição com aspectos muito imaginativos, já Proust o sabia. Também Beatriz Horta Correia o sabe. É disso exemplo a presente exposição, Branco Silêncio, nome inspirado por alguns dos conjuntos que integram a escolha de obras patente na Galeria Gomes Alves, neste fim de Inverno. Com um grande painel composto por dezoito desenhos, e dois desenhos intitulados as palavras são como o vento, completam as propostas da artista.
Aparentemente próximos, estes recortes de paisagem, ou de quase paisagens, fazem-nos buscar o referente não no que vemos, mas num outro lugar. Num primeiro instante, olhamos para estas obras como se estivéssemos a ver árvores, nuas de folhas, através de uma vasta janela. Lá fora, o mundo é composto de ténues linhas, preenchidas a branco, numa luz opaca ou transparente, que joga com os nossos olhos e ilude a perspectiva. Paisagem verosímil, em tempos invernosos. Como se um denso nevoeiro tivesse pousado sobre o dia, tudo o que vemos lá fora está coberto de uma bruma que tudo envolve. Não há ponto de fuga. E, neste lugar benévolo, tudo o que vemos é sedutor, levando-nos pela mão com o convite ao tempo vasto, ao olhar que se demora e enevoa. Ao olhar que se debruça na memória. 
Aqui chegados, percebemos que o espaço que a artista representa só é passível de ser visto depois de ser desenhado ou pintado. Ou seja, apenas existe como evocação (quase apetece dizer invocação, convocação), como reflexo de uma imagem mental. De uma imagem perfeita, cristalizada no tempo e sem pré-existência no mundo real. 
Por isso, as paisagens de Beatriz Horta Correia não são miméticas (elas não são tomadas de vista, aspectos do mundo natural, re-presentações de um real existente, mas reminiscências resultantes de experiências sensíveis). De modo mais claro: porque ela já passeou entre muitas árvores, porque as árvores e os seus ramos, tomados pelo vento ou cingidos em quietude, há muito se vêm entrelaçando na sua mente, ela pode agora desenhá-las e envolvê-las na sua luz pessoal, reminiscente.
Os troncos nus, igualmente brancos, de um branco que, embora de velatura é mais forte do que o do fundo, e que mantém legíveis os cruzamentos das linhas de contorno dos ramos, tornados directos e discretos exercícios de desenho, estruturam a composição. Fragmento a fragmento – desenho a desenho – a chamada big picture, a visão panorâmica, global, é dada pelos arranjos de vários instantes em que o olhar parou e a mão deslizou pelo papel, seguindo as vias do que ao gesto evoca a recordação desse corpo vegetal.
A artista trabalha, como diria Kant, operando uma síntese. O filósofo prussiano, que não gostava de se distrair com a beleza dos textos para não se perder do seu conteúdo, talvez não aderisse excessivamente à sedução destes trabalhos, que por demais o desencaminharia da ideia de árvore. Mas, certamente, reconheceria aqui o exercício essencial dessa síntese. Dizia ele que nós só conhecemos através da experiência. Que é da soma de várias intuições sensíveis (espécie de experiências avulsas do mesmo fenómeno que o nosso cérebro vai processando em afinidades) que sai o conceito de alguma coisa. Esse processo é aqui claramente evidente: Beatriz não regista o momento de cada uma das suas experiências sensíveis. Mas a sua poética é o resultado de uma pluralidade de observações, de uma diversidade de experiências, das quais operou a referida síntese. Eis, agora, as suas árvores, depuradas pela memória e levadas ao essencial. Eis porque nós olhamos para estes trabalhos e caímos na armadilha do desenho, dizendo para nós mesmos: isto são árvores. 
Tomemos ainda a síntese da artista para nos determos nos seus modos de representação. O seu trabalho não é feito de uma precisão ou rigor formal que nos dirija o olhar para o objecto, sem nos defrontarmos com os obstáculos da expressão do seu autor. Nem, tão-pouco, esta nos obstaculiza a leitura. Quando a artista abstractiza o desenho, como na série de 18 desenhos, por exemplo, fá-lo apenas como quando olhamos algo familiar a uma distância mais curta. 
O padrão mantém--se; mas o conjunto é percepcionado de outro modo.
Nestes trabalhos encontramos, como sempre na obra de Beatriz Horta Correia, um claro domínio do desenho. Reforçamos que é o contorno dos ramos – mais concretos ou mais difusos – ou a fragmentação do visível, operada por essas mesmas linhas, que faz com que nós, por defeito, as assumamos como um valor paisagístico. 
À parte a estrutura, a luz, que aí labora em conjunto, sendo temperada pelo jogo das texturas dos diversos brancos, opera a segunda ilusão: a do silêncio e de um tempo parado, envolto no mistério do que não se apresenta claramente definido.
Esta paisagem, em que a quietude é parte integrante da composição, vive, portanto, de uma paleta feita de recursos parcimoniosos: vários brancos, alguns cinzas, raros negros. 
Semelhante valor – neste trabalho que, pela intensa luz, pela lisura das superfícies, mais enevoada do que riscada, é também dado numa dimensão pictórica – é suportado pela mesma estrutura de grafite, englobante e equilibrada, que sustenta os brancos. 
As linhas são suficientemente fluidas para que percebamos a largueza do gesto. Mas comportam, ainda assim, a vibração necessária para que consigamos perceber a insinuação do acidente no crescimento de um ramo, para que a estilização não seja excessiva e, logo, estéril, demasiado perto de uma geometria que, na sua obra, não tem tido razão de ser.
Sem qualquer acção para além do convite à contemplação, esta é, portanto, uma narrativa do não-dito, um espaço dedicado à reflexão. Não se trata de metáfora, mas de constatação: o branco é uma cor muda, e não é por haver várias tonalidades de maior ou menor transparência que o silêncio é quebrado. Um branco omnipresente, luminoso mas não ofuscante; sedutor, que nos acolhe (que faz com que o reconheçamos e nos sintamos em casa) como um perfume antigo. 
Neste ponto, importa agora recuperar a questão do fragmento para falar da construção da memória. A contenção do traçado que podia ser negro mas que se retrai a um cinza melancólico, discreto mas seguro, acentua mais, como já foi referido, a aparente fragilidade do tecido do desenho, como se evocando peças do passado, imagens recolhidas num território impalpável. Partidas no espaço, como no tempo, estas paisagens agigantam-se, depois, pela escala das suas montagens, somando-se no espaço expositivo, rasgando os seus próprios limites e continuando a estória, prolongando o cenário das nossas viagens interiores. 
Contribuindo de modo decisivo para a imagem global de introspecção, as folhas intituladas as palavras são como o vento # I e II, fragmentos colados (literalmente construídos sobre colagem de folhas de um livro de poesia), surgem como os únicos elementos de perturbação neste instante. 
Se, de certo modo, podemos afirmar que estes trabalhos se apresentam como textos, inscritos numa horizontalidade que lhes dá capacidade de ascensão, mas também numa continuidade narrativa que lhes dá extensão, esta série leva-o mais longe. Nestes trabalhos, os traços acentuam o valor da palavra e do pensamento também como linha, mancha e fragmento, um fragmento mais uma vez unificado pelos traços da paisagem, como um corpo maior e aglutinador do labirinto do sentido. São peças soltas, essas palavras. Apontamentos de cor, de ideias, sensações, referências temporais, desejos. São, por si só, outras paisagens: sempre, solidão, azul, vida, procura, amor, verdade, mais, desaparece, se, quando, sol, noite, paraíso, existência, mistério, tempo, amanhã, futuro, fogo, entrada, olhos, felizes, mar, vento, tristeza, pensamentos, limite, desejos, vida, transformação, indefinido. Quase esperamos que estes vocábulos – os que surgem iluminados – tombem maduros, como frutos. 
Encontrando-se vestigialmente sob a velatura de nevoeiro da lembrança, nesta série (em que surge mais uma variável cromática, a da cor do papel dessas folhas) as palavras funcionam num duplo registo de linha e de sentido: integram a composição através do seu corpo físico, da sua expressão riscadora, como folhas ou frutos, sobre as ramagens secas destas árvores invernosas e, como signos, apontando caminhos da memória, sinais de sentidos que se procuram e se retêm. A escolha dessas palavras é significativa e convida-nos a seguir um fio de pensamento que nos dá, contudo, apesar de alguma orientação, a liberdade de criar a nossa própria ficção. Trabalho sem um referente presente, como já foi aqui afirmado, apenas evocado, ele revela também o quanto da memória da palavra é evocação e construção. De um texto – como numa multidão – há uma palavra (como um rosto, uma linha, uma cor ou um ponto de luz) que se destaca. Numa composição, o mesmo se dá num traço, uma dissonância ou qualquer tipo de perturbação, de excesso. 
No conjunto destas obras, apetece perguntar para onde cairão aqueles pequenos riscos que compõem as imagens e as palavras. Pequenos fios, como linhas da escrita ou do desenho, como frutos maduros. Como restos de uma costura, de uma conjugação de esforços – Louise Bourgeois dizia que sempre se fascinara com o poder da agulha e da linha: o de juntar o que era separado, de reparar ou suturar o estragado, o ferido – essas linhas tombaram, perdidas no seu momento sazonado. E eis onde, afinal, elas tombaram. Recolhidas, como pés de cerejas ou como o princípio de um alfabeto do desenho, Beatriz Horta Correia, recebeu-as numa taça. Cozidas (não cosidas) num forno, esses fragmentos do desenho metamorfoseados em fios de faiança, repousam agora como parte do mesmo corpo da taça. Brancas, leves, com a mesma cor da neblina que nos envolve em toda estas peças de papel, em todos estes cenários reminiscentes, elas voam para as mãos de Beatriz. E quase a ouvimos dizer, com esse graal sobre as suas palmas abertas: tomai, este é o meu corpo.​

Emília Ferreira, Almada, 24 de Fevereiro de 2011

Musas em Ação

Cristina Ataíde, Beatriz Horta Correia, Graça Pereira Coutinho e Miguel Gaspar realizaram nos dias 12, 13 e 14 de julho de 2019 a residência artística de Monsaraz e margens do Guadiana, durante a qual conceberam e produziram trabalho artístico específico para o projeto de curadoria MUSAS EM AÇÃO – espessura da [in]visibilidade, título da programação ideada para Mulheres nas artes, ciências sociais e humanas, ciências e tecnologias - iniciativa da Universidade do Porto.

Na Galeria 2 do Edifício da Reitoria nos Leões mostram-se nesta exposição 3 instalações, distribuídas ao longo do espaço que foi organizado e dividido entre as 3 artistas e que integra a apresentação de dizei-me agora ó Musas, vídeo concebido especialmente por Miguel Gaspar.

Dizei-me agora, Musas que habitais as moradas do Olimpo (pois sois deusas, assistis aos acontecimentos, conhecei-los todos, e nós não ouvimos senão a sua fama, e nada sabemos), quais eram os guias e os chefes dos Dánaos. (Homero, Iliada)

As Musas Arcaicas, as Musas Modernas, As Musas Contemporâneas…sempre em ação ultrapassando o tempo, evocando Dionísio e Apolo conciliados pela força da intuição criadora e do pensamento atuante. As Musas, quando assim decidiam, plasmavam a verdade, delas emanando revelações que nem todos eram capazes de antecipar, quanto mais decifrar ou ponderar. As nove filhas de Mnemosine e de Zeus eram: Glória, Alegria, Festa, Dançarina, Alegra-coro, Amorosa, Hinária, Celeste e Belavoz. Conhecem-se por Calíope (poesia épica); Clio (história); Polímnia (retórica); Euterpe Terpsícore (dança); Érato (lírica coral); Melpômene (tragédia); Talia (comédia); Urânia (astronomia).

No período arcaico da Grécia, o Aedo era um protagonista privilegiado que incorporava os dons outorgados através das Musas, emocionando e perturbando os espetadores, propiciando uma experiência estética fundada em razões psicoafectivas, exploratórias de processos de introjeção-projeção. Eis uma das origens da consciência artística e estética subsumida no conceito de triunica choreia.

As Musas manifestavam-se pela Dança, Canto, Música, Voz, Poesia, História e Astronomia, alimentando-se e ofertando aos mais dignos, o que a Memória lhes infundia. Depois, as Musas apropriaram-se – em termos metafóricos - do Desenho, da Pintura, da Escultura, invadindo os campos poéticos e converteram o mundo em substâncias que, ad initio, dele nascem e à Ordem das coisas retornam. As Musas são bisnetas da Terra, onde tudo se

infunde e é absorvido. Pois as Musas me ensinaram a cantar um hino maravilhoso. (Hesíodo, Teogonia), os rituais ancestrais reativaram-se, proclamando a urgência humana em aplacar os 4 elementos, redimindo-se de seus devaneios inconsequente e ações gratuitos ao longo de séculos. A Arte é remissiva perante a convicção generosa da criação que artistas

cumprem em estado de utopia lúcida. Tudo se reduz à preciosidade do fio de feno, do vento que sopra a folha de papel e da mão que aflora a espessura ínfima. Tudo se grava nas paredes da memória singular viso-verbico-mental. Esquecer, paradoxalmente para lembrar, eis Mnémosine que contraria sua própria natureza (para a asseverar) ao propugnar o esquecimento de males e descanso de preocupações. (Hesíodo, Teogonia)

Na produção das artistas-mulheres reconhece-se a singularidade conceitual, as caraterísticas da conceção ideativa acionada; determinar, de acordo à intenção que autoridade pessoal lhe consigne, qual a sua especificidade na totalidade de suas possibilidades, relembrando Giorgio Agamben, A Comunidade que vem (1993).

As Artistas passam a ser as Musas e clamam por Ação. Possuem o conhecimento, sendo capazes de o iludir e transmutar em causas e pretextos alheios à verdade, sob auspícios da utopia ou da quimera. Usufruem do poder metamórfico que acionam nos demais, instigando-os à mudança e dinamismo que redimirá a comunidade nos seus valores primordiais.

Para que as Musas se convertessem definitivamente em Musas atuantes, em prol de uma auto-poiesis e gerarem elas as obras que induziam a outrem, a História reacendeu-se. Havia que perscrutar onde, nos confins do tempo, se identificavam referências às primeiras pintoras, desenhistas, ilustradoras, autoras: poetas, escritoras e demais intelectuais. Na 1.ª fase, retrocedeu-se à Antiguidade tardia e Idade Média. Deu-se continuidade até à listagem mais recente de artistas contemporâneas e atuais, articulando a constituição

de arquivos: um de imagens e outro de registo de pensamento crítico e teórico – privilegiando domínios da Estética [Filosofia], Poética e Teoria da Arte.

Identificam-se e mapeiam-se identidades na extensão e cruzamentos interculturais, dilatando a travessia da Europa e o vaivém no Atlântico – Portugal/Brasil.

As mulheres-artistas incorporaram perspetivas e expandiram, assuntos e temas até então esparsos ou dispersos, refletindo as convicções e firmando intencionalidades. Na atualidade, questiona-se a extrapolação estereotipada do termo “mulheres-artistas”, entendido por alguns como limitativo ou endereçando ao reconhecimento de uma obra, mais dirigido pelo reconhecimento “questão de género”, do que pela qualificação em si. Além da palavra artista ser feminino… Ditoso aquele a quem as Musas amam…

(Hesíodo, Teogonia)

 

*[O Projeto A [in]visibilidade da mulher na História da Arte – pensamento,

obras e ações [InED – Escola Superior de Educação, Politécnico do Porto],

surgiu da investigação pessoal iniciada em 2000 (FCT – Writing and Seeing].

A partir de 2006 traduziu-se nos seminários anuais A [in]visibilidade da mulher na História da Arte e do pensamento [até 2009 em parceria com Paulo Reis, no Instituto Cultural D. António Ferreira Gomes, Porto].

Maria de Fátima Lambert

Como um lugar que se constrói


Uma paisagem é muitas vezes uma construção. Se demorarmos o olhar sobre um lugar, ele pode passar a ser para sempre nosso. Fica como uma parte indizível da nossa história. Um campo indiscutível das nossas emoções secretas.
Mas convenhamos, esses lugares não existem fora de nós. São uma ocasional mistura de planos fixos e em movimento, de pormenor ou de distância. De sol e de chuva, de vento e outros mistérios.
Os meus lugares secretos, são sempre os lugares que já foram, irrepetíveis e não visitáveis, porque quando se volta, se chega com a memória e ela é inimiga do encantamento.
Nos desenhos de Beatriz Horta Correia, eu sinto o olhar de quem procura, de quem decidiu que a busca é um meio e não um fim. 
Por vezes há horizonte, noutros casos fixamos o que nos está muito perto, ou melhor, o que nos é mais próximo e urgente. As formas são lugares imprecisos, porque não estão decididos. São uma metamorfose do que é e do que foi ou do que talvez possa ser. Uma espécie de indisciplina de sentidos.
Claude Lorrain, na sua “Pastoral”, acentua pela luz a verdade de um lugar que só ele conheceu. Assim se decidiu Antoine Watteau, no seu “Embarque para Cítera”, onde a viagem foi o pretexto para conhecer os viajantes.
Não há melhor lugar para estar, como aquele que desejamos ser a cada instante da nossa viagem.
Uma linha quebrada, um passo em falso, um trilho na lama, uma réstia de luz, devem sempre ser a consequência de um esforço resoluto em encontrar o que só nós poderemos ver.

Francisco Clode Sousa, um dia de Abril de 2007

A limpidez da matéria


À cerâmica associa-se a ideia de opacidade, matéria densa que quando empregue em recipientes oculta e protege o que contêm. A transparência, o limite da coesão do material, permitindo que a tessitura constituinte dos objectos possa ser observada é o que procura Beatriz Horta Correia. Partindo da construção de delicadas redes cerâmicas, que por vezes se sobrepõem ou surgem depositadas em taças, ao corte cirúrgico das paredes de jarras levado ao limite do (quase) improvável, nestes objectos a ausência acaba por assumir um maior protagonismo que a matéria que neles é deixada. Os efeitos dramáticos de sombras que potenciam permitem (re)criar neles sempre novas identidades, numa capacidade de reinvenção pouco usual. O emprego de papel ou tecidos mergulhados em calda de porcelana e trabalhados de modo a criar uma coesão cuja destruição parece ocorrer só pela respiração do observador, através do uso de luz directa garantem uma transparência que permite recriar os passos da sua criação. Nestes objectos é possível encontrar uma certa citação oriental nas técnicas empregues, mas em nenhuma é mais evidente como no emprego de bagos de arroz para criar texturas de ainda maior transparência, em paredes já quase levadas ao limite.

Alexandre Pais, in Catálogo da exposição “O Poder do Fazer”,

Museu Nacional do Azulejo, Lisboa, 2013

Das Coisas nascem as coisas

Das coisas nascem coisas, de Beatriz Horta Correia, percepciona-se a experiência da coisa, enquanto natureza. Ao entender o fenómeno como transitoriedade, a matéria revela-se mutável, invisível e visível. Valoriza-se o processo como desconstrução e criação da obra de arte. Da destruição, contempla-se as matérias em transformação, como memórias, sombra e luz.

Beatriz Horta Correia, nesta exposição no Salão Belas Artes, remete-nos a Bruno Munari (1981), através da apropriação do título de uma das suas obras. A artista explora como se entende a coisa, enquanto fenómeno no ambiente, na concepção espaço-temporal, não propriamente a série de operações projectuais sobre o objecto. Apresentando uma série de trabalhos de desenho e de escultura.

A natureza manifesta-se em diferentes estados. Convida-nos a sentir a volatilidade da matéria, como se fossem apontamentos de instantes em ténues linhas e manchas, transparentes ou opacas, que se movimentam entre luz e sombra, pousando numa ‘névoa branca’. A coisa e a matéria são por si paisagens. Fruímos experiências do sensível, cujas palavras emergem de uma contínua narração, passam a ser fragmentadas e descontextualizadas, como uma memória desprendida dos indícios dos vocábulos ocultos, que realçam e cristalizam o tempo. [A páginas tantas, 2017]. Aglutinando numa síntese a linguagem e a imagem pictórica, as marcas repousam no silêncio. Tal como afirma Foucault (1966, p. 90), na sua obra As palavras e as coisas:

«As palavras agrupam sílabas, e as sílabas letras, porque há, depostas nestas, virtudes que as aproximam e as desunem, exactamente como no mundo as marcas se opõem ou se atraem umas às outras.»

Na aparente fragilidade da escultura em porcelana, o silêncio acentua a ausência do objecto, na impossibilidade da leitura, onde reside a metamorfose, na instalação intitulada Com que matéria se fazem poemas?

 

Joana Consiglieri

Lisboa, novembro de 2017

Entrevista com Alda Galsterer para a revista Attitude#83 Set. 2018

"A busca é um meio e não um fim" - Expressividade Silenciosa

Alda Galsterer: Estudou Design e Cerâmica no IADE e Desenho no Ar.Co. Como foram estas experiências de ensino, e como é que cada uma delas marcou o seu trabalho como artista?

Beatriz Horta Correia: As experiências de ensino foram importantes no sentido em que são a base de uma aprendizagem, uma estruturação para o início de um percurso de trabalho. Nos primeiros anos a fase de descoberta e encontro com matérias, experiências, referências e ideologias é muito motivadora para começar a estruturar e crescer. Depois acho que senti que aquilo que era oferecido me sabia a pouco, então aí começou um percurso mais pessoal de ir à procura e de pesquisar onde podia aprender mais. O fazer e ver fazer são também uma grande escola…

AG: Desenho e cerâmica, são os seus media principais. O que associa com estas materialidades, tão diferentes uma da outra?

BHC: Para mim existe uma grande ligação entre estes dois media, ou melhor, no meu trabalho existe esta relação, apesar de um ser bidimensional e o outro tridimensional, a linguagem que utilizo é transversal a ambos. São muitas as relações, formal, cromática, de conteúdo e até na própria matéria. Em algumas peças que produzi, utilizei papel embedido em pasta líquida de porcelana para criar novas formas, e noutras, objectos de papel existentes como por exemplo na obra “Com que matéria se fazem poemas?”, que foi feita a partir de livros de poesia mergulhados em porcelana.

AG: Os seus desenhos remetem-nos muitas vezes para a ideia de paisagem, pela sua orientação horizontal, não obstante sempre mantendo um registo mais abstracto com um traço leve e em movimento. Quando vemos as suas obras em cerâmica, elas próprias nos parecem paisagens em miniatura; é essa a intenção?

BHC: A paisagem e a natureza são referências e pontos de partida em muitos trabalhos. Interesssa-me trabalhar modos de representação e percepção fundindo diferentes tipos de vocabulário. Muitas representações não pretendem ter uma relação directa com a realidade visual, mas sim com memórias ou um experienciar das mesmas. A dimensão na cerâmica tem um limite dado muitas vezes pelo próprio media, não considero que sejam miniaturas, o objectivo não é trabalhar a escala, considero sim que são objectos e esculturas construídos a partir de uma ideia de paisagem, que muitas vezes funcionam por conjuntos ou com uma dimensão adaptada a cada peça.

AG: A ideia da paisagem remete-nos sempre para uma ideia de narrativa, de eixo temporal que atravessa a vida, e por consequência também um ponto importante para a arte. Isto é de facto uma reflexão central para o seu projecto criativo?

BHC: Sim. A ideia de paisagem atravessa tudo. Aqui posso questionar vários conceitos como o efémero, o vazio, o silêncio ou a memória, e o tempo é uma premissa que se encontra em todas estas questões. As paisagens são construções, se nos afastarmos do real podemos encontrar imensas referências em objectos, formas e detalhes a que poderíamos muito bem chamar de paisagem. Há ainda a paisagem como cenário de acções, construções de espaço e narrativa… Muitas vezes no meu trabalho a narrativa é também reforçada com o recurso à utilização de texto ou palavras, ou a referência à ausência dos mesmos. 

AG: Em último, concorda, ou não, com a afirmação de Francisco Clode Sousa que diz que o seu trabalho reflete um “olhar de quem procura, de quem decidiu que a busca é um meio e não um fim”?

BHC: Concordo. A procura é para mim por si só um factor motivador de trabalho. É durante o processo de trabalho, tanto no desenho como na cerâmica, que vou percorrendo caminhos e encontrando soluções. Há um ponto de partida, uma ideia, mas a construção é sempre uma descoberta, uma revelação, um diálogo entre o que se constrói e a sua construção. Gosto também de desafiar a matéria e testar os seus limites, principalmente na cerâmica onde a interacção do barro com a água, o tempo e o fogo, torna todo o processo um constante diálogo entre o possível, o efémero e a permanência.

Entrevista com Dora Santos Silva - “My Pillow Notes” #16 22-06-2020

_Coisas de Criadores: Beatriz Horta Correia

Obter a memória de um livro através de porcelana absorvida pelo papel é, no mínimo, um desafio aos limites da matéria. Beatriz Horta Correia ultrapassa-os continuamente: há esculturas gigantes, mas leves, e poesia marcada pelo

peso do grês.

DSS: A sua atividade artística centra-se no desenho e na cerâmica. A primeira é bidimensional, a segunda tridimensional. Complementam-se?
BHC: Sim, o meu trabalho em cerâmica/escultura tem muito a ver com o trabalho em desenho, há uma linguagem comum e interessa-me conjugar ambos, criar diálogos e sinergias entre as várias obras. Para mim isso é natural, pois reflete como eu penso, sinto e me relaciono com o mundo. São muitas as relações, formal, cromática, de conteúdo e até na própria matéria, apesar de um ser bidimensional e a outra tridimensional.


DSS: Na instalação "Com que matéria se fazem poemas?" funde os livros em porcelana (ou ao contrário). Que mensagem quer passar com essa fusão?
BHC: Esse trabalho foi realizado com livros de poesia e barbotina de porcelana. A porcelana, ao ser absorvida pelo papel, adquire a forma do mesmo, e depois é trabalhada para lhe dar a forma que pretendo. Pela ação do fogo, durante a cozedura, o papel transforma-se em cinza ou pó e desaparece; a porcelana solidifica e mantém-se estável. Com este processo pretendo obter a memória daquele livro. Existe uma transformação da matéria, interessa-me explorar este aspeto, o lado efémero das coisas, da ausência e da permanência. Há todo um desafio ao testar e tentar controlar os limites da matéria, da sua fragilidade e resistência.

DSS: As suas obras são muito orgânicas, quase se fundem com a natureza. É esta a base do seu processo criativo?
BHC: Sim, em grande parte. A paisagem e a natureza são referências e pontos de partida em muitos trabalhos. De facto uma grande fonte de inspiração. Interessa-me trabalhar estas temáticas afastando-me de uma representação da realidade, trabalho muito mais com memórias ou a partir de percepções e sensações, ou ainda com referência a textos ou poesia, do que mimetizando o real, muitas vezes até caminhando para a abstracção.


DSS:A escultura de papel que fez na residência artística na Viarco em 2018 remete-nos para a "insustentável leveza" do ser, da arte ou do papel?
BHC: Foi de facto um privilégio ter feito esta residência na Viarco, tive a oportunidade de trabalhar num espaço único, explorando materiais excepcionais e com um acolhimento extraordinário. As esculturas que criei em papel vegetal são peças com alguma dimensão (cerca de 2,50 m de altura) mas extremamente leves. Foram instaladas na secção da mina da fábrica, um espaço escuro, onde tudo está envolvido em grafite ou em pó de grafite, um brilho metálico, com máquinas que são verdadeiras relíquias de arqueologia industrial... Estas esculturas são como que corpos vazios, leves, brancos, translúcidos, ausências, com formas pouco definidas, suspensos, aproveitando a luz e o vento. São desta forma um jogo de opostos - luz/escuridão, positivo/negativo, ser/não ser, peso/leveza.

DSS: Também desenvolve projetos de design principalmente na área da cultura.

É muito diferente fazer design de produto ou de marca para o mercado cultural?
BHC: Desenvolver um projecto de design envolve sempre um pensamento, um entendimento daquilo que se pretende criar. É pelo menos assim a maneira como eu trabalho, e deste modo, não é muito diferente a maneira de fazer, qualquer que seja o âmbito do produto a desenvolver. A diferença está, talvez, na afinidade e proximidade que se tem com esse mercado, que pode deste modo ajudar no desenvolvimento do processo de criação para encontrar as soluções adequadas.

© 09/2020