ARTE & CULTURA - Umbigo Magazine

Nada se Perde Tudo se Transforma de Beatriz Horta Correia

 Miguel Pinto

“A folha é a forma paradigmática da abertura: a vida que é capaz de ser atravessada pelo mundo sem se deixar destruir por este” lê-se num excerto sublinhado de A Vida das Plantas de Emmanuele Coccia, disposto numa das gavetas entreabertas do Laboratório de Química onde se desenrola a exposição. No sublinhado desse lápis de carvão vemos o traço com que se compõem os desenhos, mais acima, na bancada do armário dessa gaveta. Traço que é apenas aparente: são compostos através de furos de lápis na superfície do papel, como um picotado. A luz clara, branca da janela, reflete-lhes a melancolia. Estas obras, intituladas, sobriamente, Fólios – tanto a folha de papel como a folha das plantas – poderão interpretar-se como o coração da exposição, o seu núcleo definidor, recetáculo da química do mundo.

O espaço é quase totalmente branco. As portas e janelas de madeira a estalar diluem-se na texturalidade das obras, seja o picotado dos Fólios como a porcelana de uma série de esculturas “sem título”, entre o tronco e a máscara – também elas são signos de abertura. Abertura que não se pratica enquanto desvendamento de um segredo oculto, catarse que se pretende realizar. Ela é um meio de chegar à transparência, à fusão das obras com o ambiente, como se quisessem tornar ar. Transparência que pode ser formal, como conceptual. Na segunda reiteração de Fólios, disposta numa outra janela, a artista coloca uma capa de cartão por baixo dos desenhos, como se quisesse revelar o contexto de onde surgiram, revelar-nos o seu processo de construção. O marmoreado verde e negro da capa parece-nos uma vista ao microscópio, mistura-se na parede, nas bancadas, ácido como uma anomalia.

Ao centro da sala, pendendo do teto, vemos Plantae, um conjunto de desenhos sob um negro, mas translúcido, papel de seda, formando um painel que percorre o comprimento da sala. Desenha-se um mapa de árvores que a cada desenho se corta, como se silhares dispostos aleatoriamente. A tintura é sépia, parecendo chorar, e o sol trespassa nos interstícios do papel. Ainda assim, a obra soa-nos algo fria na sua previsibilidade formal, compondo-se uma composição líquida e expressiva como uma sombra, gesto mínimo que é já lugar-comum em obras que pretendem cruzar arte e natureza.

Mais interessantes são as obras dispostas ao fundo, num espaço que lembra um altar. Comecemos por About Nature #1 onde se transcreve um excerto do livro do Génesis, a criação da natureza e do mundo, composta através de tessitura sob papel de arroz. O resultado é um manuscrito escrito a tecido, de onde pendem as linhas que desenham o texto, como se a natureza nelas penetrasse – a palavra criadora, como se composta por uma entidade sobre-humana, trepadeira que escala a folha de papel. Em baixo encontra-se a obra que dá título à exposição, Nada se perde, tudo se transforma – livros de porcelana com rachas de onde brotam musgo – o papel feito pedra, finalmente natureza, como o sonho de um poema de Daniel Faria. Vêm-nos, ao aproximarmo-nos, o invernal cheiro a terra, dissociativo em plenos 40 graus de julho.

Também feitos de cortes, no entanto, desenhados, são as primeiras obras que vimos ao entrarmos. Apresentam-se, novamente, “sem título” e compõem-se como casulos originários, de onde brota tudo o resto – o lápis cerâmico compreende-lhes uma linha de cima a baixo, anunciando que algo irá despontar. Dispostos em cima da bancada de um armário, como organismos a estudar, numa gaveta por baixo, sob luz azulada, encontra-se About Nature #4 como fósseis negros de onde, provavelmente, nesta narrativa imaginária, terão surgido estes organismos em cima. Preservam apenas uma cova, enquanto marca e testemunho de um passado, que permanecerá.

Tudo aqui quer ser cosmologia, compreensão do mundo – religião, biologia, química, contemplação. O espaço não poderia ter sido mais adequado, fazendo brilhar até obras que noutro contexto poderiam ceder a segundo plano. Encarna-se, literalmente, a ecologia do título que se anuncia, um aproveitamento necessário até ao mais leve ponto conceptual, um recordar das possibilidades narrativas que residem algures entre a arte e a ciência.

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Exposição "Nada se perde, tudo se transforma", 2022

Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Lisboa

Curadoria de Sofia Marçal